O historiador Marco Antonio Villa frequentemente protesta contra o uso superficial e quase aleatório do termo populismo nos debates brasileiros, chegando mesmo a rejeitar globalmente qualquer aplicação deste conceito para análise de fenômenos políticos que não pertençam ao mesmo período histórico de Perón, Vargas, etc.

É possível apontar o padrão dos usos equivocados da noção de populismo, ou populista, muito comuns no jornalismo e no discurso dos próprios políticos. Porém, também é necessário enfatizar que algumas referências recentes, tanto pela esquerda como pela direita, trataram de “atualizar” o uso do termo. Não se trata apenas da crítica feita a um governo, movimento ou discurso ideológico que apela ao populismo como rótulo depreciativo, há aqueles que reivindicam para si e defendem abertamente a posição populista.

Como em qualquer outro debate em torno de conceitos teóricos, pode haver controvérsias sobre a pertinência deste uso atual do termo, mas a definição com que é utilizado na abordagem sobre o populismo nas últimas décadas deve ser levada em conta nesta avaliação.

Populismo como mero sinônimo de demagogia:

Em geral, se entende populismo e demagogia como termos equivalentes, o populista é um demagogo. Muitas vezes ambas as palavras aparecem numa mesma frase, como formas de dizer o mesmo e reforçar a estigmatização de um determinado político ou proposta em debate.

Trata-se de um erro que não é gratuito, pois a relação existe, só que a demagogia é um fenômeno muito mais geral e difusa da política, enquanto é uma característica entre outras que definem especificamente o que é o populismo. A demagogia é um recurso retórico e psicológico presente na rotina de partidos, debates parlamentares, discursos em palanque. Raro na política é encontrar conteúdo livre de demagogia. Sem dúvida, ela é fundamental para um movimento populista, mas este tem formas mais determinadas que a demagogia, não algo tão vago e genérico.

O populista como um tipo psicológico ou como estilo de personalidade:

É verdade que o chamado carisma, noção sociológica graças a Weber, é um traço presente em líderes populistas, além de fanfarronice, falta de senso do ridículo, uma intrepidez incrível para afrontar e escandalizar, fora o cinismo ilimitado para mentir várias vezes por dia. Porém, o populismo só existe onde há um movimento de massa. Ou seja, o político que apresenta todas essas “virtudes”, mas sem dispor de um movimento popular para delirar diante de suas bravatas, não passa de um imitador ou aspirante a líder populista. É o movimento que instaura o fenômeno político do populismo, o qual não deve ser confundido com os partidos em sentido convencional.

Populismo como apelo ao assistencialismo estatal ou a medidas econômicas irresponsáveis:

Não é apenas o “bolsa-família” ou o “auxílio emergencial” que emocionam e seduzem a massa, o discurso das privatizações e do “estado mínimo”, a depender da plateia e circunstância, pode igualmente incendiar multidões. Claro que “programas sociais” comprovadamente trazem efeitos eleitorais e para o aumento de popularidade de um governo, a questão é que o populismo não trabalha diretamente com a realidade efetiva, o fundamental é sempre contagiar a militância com alguns mitos-cardeais aos quais narrativas se articulam diante de cada pauta ou acontecimento. 

Algumas referências que exemplificam o uso atual do termo:

Ernesto Laclau, célebre cientista político argentino de grande destaque durante os mandatos de Kirchner, que mescla a influência do peronismo com o marxismo. Tratou do clássico conceito de Gramsci em Hegemonía y estrategia socialista” (com Chantall Mouffe), reinterpretado para o contexto atual. Mas é em La Razón Populista que o autor se dedica diretamente ao tema do populismo. Foi um dos teóricos da “revolução bolivariana”.

No outro córner da polarização, Steve Bannon também exalta o populismo.

Enrique Krauze, historiador mexicano, dedicou obras a tratar do chavismo na Venezuela e chegou a conceber um decálogo do populismo.

Gloria Álvarez e Axel Kaiser publicaram El engaño populista, também sobre o fenômeno latino-americano do bolivarianismo.

Vargas Llosa é outro combatente que enfatiza que o populismo é o “novo inimigo”.

Também recomendo o artigo do filósofo francês Bernard-Henri Lévy sobre o tema.

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