No esforço para persuadir acerca da centralidade da pergunta pelo sentido do termo “ser”, Heidegger defende a necessidade da repetição explícita desta questão, sua primazia tanto ôntica como ontológica e elabora sua estrutura formal. Segundo a obra, apenas Platão e Aristóteles teriam feito da pergunta pelo ser um tema explícito de investigação, cabendo a toda a tradição posterior meras versões da forma clássica, com múltiplas modificações e retoques, até o marco da Lógica de Hegel que a realiza plenamente.

Da multiplicidade das categorias quiditativas e da articulação conceitual do ente segundo gêneros e espécies, se diferencia o ser como unidade e como universalidade que não é a genérica. Não podendo ser concebido como um ente, o ser não pode ser definido, nem mediante conceitos superiores, nem inferiores. A ênfase do livro é que não apenas falta a resposta à pergunta pelo ser, mas que a pergunta mesma ainda não foi formulada com suficiente clareza, nem apontada sua finalidade. A consequência deste resíduo de um mistério fundamental seria a presença de um enigma subjacente a toda forma de envolvimento com o ente por parte do ser humano.

O uso corrente, e mesmo universal, do termo ser, permite que Heidegger afirme como um fato a presença na humanidade de uma compreensão do ser vaga e mediana, que pertence a sua constituição essencial. Perguntar é um modo de ser deste ente e ser afetado por aquilo que se coloca em questão é o sentido mais próprio da pergunta pelo ser.

A pergunta pelo sentido do ser em geral é a mais fundamental e concreta, ao contrário do preconceito comum de que o ser consistiria no conceito mais universal e vazio. As noções básicas sobre as quais as ciências são edificadas já pressupõem a anterioridade de determinada experiência existencial e sua interpretação pré-científica, até que se possam estabelecer regiões essenciais do ente, com seus conceitos fundamentais e estruturas constitutivas. Estaria na ontologia, portanto, um momento decisivo para os modos pelos quais as ciências se organizam e são concebidas.

Mas na base de todas as ontologias regionais deveria estar uma ontologia fundamental, buscada na analítica existencial do Dasein. A compreensão do ser é uma determinação de ser do Dasein, mas esta pode ser existentiva ou existencial. O ser é sempre aquilo diante do qual o Dasein se comporta de determinada maneira, mas é a exposição analítica das estruturas constitutivas da existência que leva à sua transparência teorética própria da ontologia. A pergunta pelo ser é concebida como a radicalização de uma tendência essencial pertencente ao Dasein, em razão de sua compreensão pré-ontológica do ser.

A analítica ontológica do Dasein se delimita pela constituição fundamental de sua cotidianidade, ou seja, aquelas estruturas essenciais mantidas em todo modo de ser que na facticidade determina o seu ser. Portanto a via de acesso e de interpretação é o âmbito da imediatez e da regularidade do Dasein, em si mesmo e desde si mesmo, e não desde uma ideia extrínseca de ser e realidade que se lhe impõe com categorias a partir dela forjadas, sem prévio exame ontológico.

A tese de Heidegger é que a experiência da temporariedade é o horizonte de toda compreensão do ser e que as estruturas do Dasein são modos da temporariedade.   O pressuposto heideggeriano é que as características da ontologia produzidas até agora estão necessariamente ligadas ao modo de ser do Dasein histórico naquele contexto em que a questão do ser foi originariamente tematizada.

Segundo a proposta de destruição da história da ontologia, certos domínios particulares do ser tais como sujeito, ego, razão, espírito, etc, surgem em cada período como ocupação central do filósofo e estabelecem toda a sua problemática. No entanto, com a omissão da pergunta pelo ser, nenhum desses domínios explicitamente tematizados pelos filósofos, é interrogado no que respeita ao seu ser e como se constitui sua estrutura. A destruição consistirá, portanto em ir além dos encobrimentos produzidos pela tradição, buscando aquelas experiências originárias que teriam fornecido as primeiras determinações do ser que posteriormente se tornaram decisivas. Deve-se examinar se a interpretação do ser na história da ontologia foi colocada tematicamente em conexão com o fenômeno do tempo e se a problemática da temporariedade foi elaborada em seus fundamentos.

Crítica:

Se Heidegger logra tocar a base daquilo que perpassa toda a história da filosofia, e mesmo da civilização ocidental, não se pode ter dúvida acerca de sua relevância e influência nos rumos do pensamento filosófico e da cultura desde a publicação de sua obra, sobretudo o livro Ser e Tempo.

Além disso, teve o mérito de apontar para a concretude da realidade humana como foco fundamental do filósofo, ressaltando que o modo do conhecimento científico é derivado em relação à fonte originária do pensamento. Insatisfeito com a polarização entre positivismo e idealismo alemão, se apropriou de elementos importantes da hermenêutica de Dilthey e da fenomenologia de Husserl, para elaborar sua própria perspectiva, embora inspirado pela meditação em torno dos múltiplos sentidos do ser em Aristóteles, após leitura na juventude de estudo de Franz Brentano.

No entanto, ao examinar a tese e argumento defendidos em Ser e Tempo, é necessário problematizar alguns pontos. Primeiramente, aquilo que se mostra desde si mesmo é o uso humano do termo ser empregado como verbo e substantivo, mas o que se busca explicitar é o sentido do ser em geral. Ora, esta questão remete a um desenvolvimento histórico particular, que é aquele dos filósofos gregos que enfrentavam o desafio de articular a multiplicidade dos entes numa lógica unitária que toma a forma teorética de um sistema totalizante. A problemática mesma da diferença ontológica não poderia surgir em outro contexto histórico.

Não há justificativa tampouco para supor que uma compreensão pré-ontológica do ser deveria coincidir com aquela estruturação regular, cotidiana e imediata que é objeto da analítica existencial, ocupada em explicitar o essencial da facticidade. Ainda que houvesse alguma compreensão pré-ontológica do ser, seria incerto que esta fosse, ao menos em germe, um tipo implícito de “série dos componentes fundamentais da existência conforme o cotidiano”.

No pensamento heideggeriano, o conceito de ser em seu sentido geral possui o privilégio de ser o único “talhado” em seu ser afetado pela apreensão originária da experiência existencial. Sua concepção estabelecida desde sua tematização entre os antigos gregos gerou a fixidez da configuração da metafísica da presença, vigente até sua crise na modernidade. Desta forma teorética determinada se derivam todas as categorias científicas e culturais que modelam nossos modos de ser e de conhecer na história ocidental.

Ainda que não contenha nenhum absurdo, a ambição monumental da tese de Ser e Tempo impede uma adesão acrítica. A coerência interna que esta construção sofisticadíssima possui não garante que possamos nos apoiar em tantos pressupostos vulneráveis e passíveis de controvérsia, ou mesmo puras arbitrariedades. Seria mesmo a configuração teorética da metafísica grega assim tão decisiva em nossos modos de ser e de conhecer desde então? Ainda que a pergunta pelo ser tivesse sido efetivamente esquecida desde épocas remotas, apenas sua nova tematização liberaria o pensamento e a civilização ocidental de uma rota lógica e existencial tão estreita e unilateralmente delimitada? O pensamento só toca a facticidade pela mediação do conceito de ser em sua acepção mais geral? Trata-se de um conjunto de questões das mais complexas e abrangentes, as quais, por isso, exigem meditação mais demorada.

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