A chegada do PT ao poder com Lula trouxe maior complexidade à imaginação da militância, instaurando o completo caos nos debates públicos. O marketing do partido julgou oportuno manejar ambas as máscaras simultaneamente: a de “mais do mesmo” e a de revolucionários.

Diante de traços “conservadores” dos governos Lula e Dilma, os militantes se dividiram em 3 grupos.   Os sinceramente decepcionados, traídos na esperança que os movia até ali, após observar a performance do PT-governo. Outros que se frustraram, o “xingam” como um partido “de direita”, mas voltam a panfletar em momentos-chave por alegarem que o “PSDB faria ainda pior”.  E há os simplesmente fanáticos que apoiam seus líderes incondicionalmente.

Entre os que se frustraram com as diretrizes de nossa política, grande parte se opôs não apenas ao governo PT, mas aos ideais da esquerda em geral, grupo no qual também há não poucas divisões. Apesar disso, a “anti-esquerda” é unânime no entendimento que tem a respeito do inimigo-comum, quanto à sua índole totalitária e ao negar que isto represente algum desvio no meio do caminho, mas uma ação planejada continental. Pois é neste ponto que surge a “torre de Babel” dos debates públicos.

Uma certa “esquerda romântica”, que nunca cansa de envolver-se em nova ilusão, compara (qualquer) governo com a utopia que inspira suas fantasias, então salva o ideal, blindado enquanto pura imaginação, o qual nunca corre risco empírico dada a impossibilidade de realizar-se. Logo, segundo tais idealistas, o PT não é de esquerda.

Para a esquerda que se diz pragmática, o governo está longe de ser satisfatório, mas é “o que tem pra hoje” enquanto alternativa de esquerda no cenário. Para estes, o Foro de São Paulo não chega a ser ignorado, mas o julgam algo normal e inofensivo, uma aliança de grupos progressistas decididos a distribuir direitos inerentes à social-democracia. As flagrantes contradições entre o discurso do partido em seu passado na oposição e o que vem sendo apresentado ao longo dos anos não são nenhum drama, tudo “faz parte”, é do “jogo político”.

Os idiotas úteis clássicos, incapazes de assumir qualquer perspectiva crítica contra o governo, seguem confiando em tudo que seja oriundo do PT ou lhe seja favorável, céticos que são quanto à sua falibilidade. Para estes, a santidade do partido, que se evidencia em programas como o bolsa família, justifica qualquer esculhambação protagonizada por eles onde quer que seja. Acreditam, muitos destes, que o Foro de SP é um produto da imaginação do Olavo de Carvalho, e apenas “olavettes” podem ter algum interesse no tema.

O que todos eles trazem em comum é a convicção de que qualquer suspeita de ameaça à democracia representada pelo governo do PT deve ser rechaçada como ignorância, absurdo e pura paranóia. Por mais críticos que se julguem, pragmáticos e românticos são ambos crentes no dogma da natureza democrática do Partido dos Trabalhadores, tal qual a fé dos militantes mais fanáticos. A atuação supostamente reacionária do governo em alguns tópicos serve de defesa contra a acusação de que ele carrega o bolivarianismo do Foro de SP como sua meta final. Mas o fomento à luta de classes onipresente nos discursos, além dos slogans tradicionais da ideologia vermelha, renovam eternamente a esperança da militância: ou de que do céu caia alguma utopia materializada, ou que ao menos estoure uma sangrenta guerra civil no país, o que lhes pareceria ainda maior recompensa por tantos anos sonhando com a revolução.

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