O termo comunismo, ou comunista, é um tabu semelhante ao nome Olavo de Carvalho, não por acaso associado à sua influência em boa parte dos casos. Mas as dificuldades com o termo envolvem maior complexidade do que sua relação com a atuação do referido jornalista. A peculiaridade de dita noção está em que ela existe e não existe simultaneamente, quer como utopia, quer como modelo político historicamente vigente.

Boa parte do maquiavelismo próprio do proselitismo marxista está em não tocar na palavra comunismo, ou outras que a ele remetem necessariamente, como revolução ou ditadura do proletariado. A doutrinação aberta só é possível diante de plateia gravemente ignorante, como no caso de estudantes universitários. No entanto, se houver público civilizado e razoavelmente informado, o vocabulário se reduz a eufemismos com a escolha calculada de palavras neutras, inofensivas e até sedutoras para a opinião pública, como democracia, participação popular, direitos humanos, luta em defesa do povo, das mulheres, dos negros, das minorias, enfim, dos “oprimidos” em geral, mas jamais se fala de luta de classes, extinção de liberdades e do direito de propriedade privada. A expropriação dos indivíduos pelo estado se reivindica através do ataque ao “individualismo” a que nos teriam condenado certas ideias liberais.

Identificada esta tendência geral, a de se manejar ideias comunistas sem comunicá-las por via de jargão comunista, deve-se examinar a controvérsia tendo em conta tanto o momento atual quanto o regime militar.  Hoje, desde o mais vulgar senso comum, alega-se que “o comunismo acabou” em razão da extinção da União Soviética, muro de Berlim, etc, como se a doutrina marxista se reduzisse ao “programa de governo” dos soviéticos para morrer automaticamente na ausência de seu único dono. Mas quando se trata de discutir a conjuntura que deu origem e razão de ser ao regime militar, tampouco se reconhece a efetiva presença do comunismo internacional, no auge da Guerra Fria e poucos anos após o êxito da revolução cubana.

Segundo nos contaram desde que nascemos, os militares odiavam o povo brasileiro, servilmente prontos a obedecer comando norte-americano para derrubar um presidente comprometido com o interesse popular e nacionalista,  toda uma manobra golpista movida por pura desumanidade e falta de compaixão diante do sofrimento dos mais humildes. Daí em diante, houve uma interminável orgia de torturas, pelo sadismo inerente à profissão do militar. Não tendo outro entretenimento tão interessante com que se ocupar, os militares apelaram para a captura arbitrária de jovens estudantes, culpados tão somente de não estar de acordo com um regime autoritário, doutrinários que eram da democracia e suas liberdades. O inocente sonho de um mundo melhor os teria colocado no alvo daquela repressão tão brutal.

Desde este viés, uma “ameaça comunista” soa como pretexto mentiroso para dar ocasião à violenta farra dos milicos. Mas tal mito é desmontado tão logo se estabelece que as circunstâncias naquele momento eram de guerra, no contexto de expansão do comunismo internacional. Grupos de brasileiros foram treinados para guerrilha e terrorismo em países como Cuba, China e Albânia desde anos antes da chegada dos militares ao poder em 1964, ainda durante a democracia. Ademais, não são apenas os generais e outros oficiais ou policiais envolvidos com os orgãos de repressão que relatam tal estado de coisas. Os fatos, como atentados terroristas com bomba, assaltos a bancos, roubo de armas em quartéis, sequestro de autoridades internacionais e execução de algumas delas,  “justiçamentos” de companheiros suspeitos de traição, assim como o ideal da “ditadura do proletariado” defendido no programa de todos os grupos armados, são relatados pelos próprios subversivos envolvidos naquelas ações. É o caso por exemplo de Fernando Gabeira, Vera Silvia Magalhães, Eduardo Jorge, Cid Benjamim, Carlos Eugênio da Paz, Franklin Martins, “cabo” Anselmo  e outros. E ainda que historiadores marxistas como Jacob Gorender e Daniel Aarão Reis também tenham registrado isso tudo, para jornalistas e professores, tanto em colégios como em universidades, nada sequer semelhante jamais ocorreu. Até em momentos que o comunismo chegou tão perto do poder, o relato é feito como se nada fosse mais distante que a presença ameaçadora de um comunista em nosso território.

Playlist “1964, Regime Militar, AI-5, Guerrilha e Terrorismo, Comissão da Verdade”:

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