Celebridade do youtube para os mais jovens, Caio Fábio foi o “Messias” de boa parte do rebanho protestante brasileiro há umas décadas atrás. Imaginem, pois, o estado de carência brutal em que tal grupo religioso se encontrava à época. De fato, o domínio do texto bíblico que ele mostra ao citar muitas passagens de memória, até capítulos inteiros, é algo admirável, e muitos se impressionam também com seu estilão performático como pregador. Porém, basta conhecer minimamente a Teologia para flagrar quantas disparatadas especulações ele lança como rompantes de “sabedoria espiritual”, atribuindo, por isso, a si mesmo uma superioridade epistemológica que soa como puro charlatanismo. Se em algum momento de sua carreira, Caio foi capaz de contribuir com alguma intuição autêntica e profunda sobre o texto bíblico, ou mesmo a vida humana, isto se perdeu no oceano de simulações para passar-se por sábio diante de toda e qualquer questão a ele dirigida.

Além da psicanálise de leitoras de revista para adolescentes, que acredita que não se reprimir em seus desejos nem sentir culpa por prática sexual, é a solução dos principais sofrimentos humanos, Caio “psicologiza” até mesmo sua compreensão dos Evangelhos. Para ele, ali estão representados os estereótipos que resumem o conjunto de possibilidades para a personalidade de cada indivíduo. Talvez escapando algum detalhe, há o embrutecido espiritualmente que se torna venenoso na figura do fariseu, enquanto a figura do discípulo cheio de boas intenções mas demasiado ingênuo, ou estúpido, para entender a “simplicidade” da mensagem do mestre.  E, claro, o próprio Jesus, cuja função de ensinar bobalhões e praguejar contra seus antagonistas, é imitada do modo mais canastrão por Caio, tal qual o Cristo que construiu à própria imagem e semelhança.

Para justificar tamanha intimidade intelectual e moral com a pessoa concreta de um judeu da antiguidade, apela-se à noção da “chave hermenêutica” que é o próprio Jesus, tornado assim mediador e alvo da interpretação bíblica ao mesmo tempo.  Tradicionalmente, os cristãos interpretam o Antigo Testamento à luz da mensagem do Evangelho que lhe é posterior. Outra coisa é mistificar a personalidade, como se esta fosse auto-evidente, para fazer de uma idealização de Jesus o “canon místico” que estabelece limites e fronteiras entre o que possui valor perene na Bíblia ou caducou. Pior, faz do mesmo ídolo a base de critérios para qualquer verdade ou virtude que julgue dignas de reconhecimento.  Mas os valores que o conduzem nisso são um caldo de existencialismo, esoterismo new age, movimento hippie, jiu jitsu, surf, além dos clichês psicanalíticos anteriormente mencionados.  A não ser que se esteja disposto a aceitar que a mensagem e a perspectiva de Jesus diante da realidade estavam de acordo, no essencial, com a concepção que tinham da condição humana autores como Freud ou Sartre,  nem nada traziam de muito  diferente ou distante dessas abordagens modernas, deve-se suspeitar de que algo está mal contado nesta proposta não só hermenêutica mas doutrinária.

A distinção “segundo a carne x segundo o Espírito” também é conveniente para mistificar suas opiniões de teólogo amador. Toda esta retórica soa patética quando se nota que a “luz” exibida pelo “espiritual” intérprete não passa de conteúdos encontrados na obra de Kierkegaard, Lutero, Agostinho, ou algum outro clássico que usa sem dizer que o faz, cabendo apenas mencioná-los raramente. Contudo, sem jamais admitir que deve sua desenvoltura para comentar teologicamente as passagens bíblicas pela mediação das noções aprendidas em leituras que lhe permitam a compreensão específica que Caio apresenta e defende. Estas categorias teológicas e filosóficas são a única “chave hermenêutica” que encontramos em sua exegese e interpretações da doutrina.

Seu irracionalismo kierkegaardiano, herdeiro de um arcaico e hostil anti-intelectualismo protestante, cai no anacronismo em tempos de William Lane Craig, com todo este horizonte aberto pela apologética de viés “Reasonable Faith”, contundente exemplo de conciliação justa de fé e razão. Mas ao nível teológico mais profundo, Caio Fábio parece expressar em si mesmo o conflito entre liberalismo teológico, com sua flexibilidade crítica diante da Bíblia, dos dogmas e da tradição da igreja, e o fundamentalismo popular que reage contra tudo isso, onde a mística autêntica não é rejeitada. A “queda” em uma corrente de tonalidade iluminista, ao contrário do que supõe a oposição simples entre ortodoxos e hereges, não implica abandonar componentes tradicionalistas que a tese heterodoxa parecia negar.

Playlist “A anti-Teologia pregada por Caio Fábio”:

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